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YAMÊ ARAM

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

...A SUCURIJU ENGOLIU A BITA, VÓ!

Dona Chica caiu sentada ao ouvir a notícia. Sua netinha de apenas doze anos havia sido engolida por uma sucuriju. Em qualquer outro lugar uma frase como aquela que Andréia, de apenas quatorze anos, havia gritado desde o meio do rio, poderia até ser brincadeira, mas ali, no meio da mata fechada, longe de tudo e de todos, infelizmente era verdade.

-CORRE CURUMIM! VAI PEGAR ÁGUA PRA TUA VÓ, SUA MERDA! NUM TÁ VENDO QUE A VELHA DESMAIOU, SEU CORNO? -Gritou Dona Concé, mãe dos três, braba com o Toinzinho, Antônio na verdade, mas todos só o chamavam de Toinzinho, porque era assim que ele aos dois aninhos de idade, respondia quando lhe perguntavam seu nome, que correu assustado e com o coração acelerado pra buscar água pra sua vó de oitenta e quatro anos de idade, que estava desmaiada por ter ouvido sua neta gritar com voz de cuiantãe, estridente, que a outra cuiantãe, a mais violenta e mais barulhenta que todas, havia sido engolida por uma sucuriju gigante, com certeza.

 Aquele aningal que tinha na frente da casa, e que se estendia por toda a Cabeceira da Cobra Grande -Essa ironia nunca tinha sido tão mal-oportuna como naquele de pôr-do-sol amaldiçoado. - só podia ser a casa de uma cobra-grande. E Dona Chica sabia disso melhor do que ninguém, inclusive já tinha falado pro Benedito, pai da cuiantãe engolida pela sucuriju gigante, que tomasse cuidado ao andar pelo caminho sobre o aningal. Mas também, não pense que foi displicência do pai da cuiantãe, só havia aquele caminho para atravessar aquele enorme aningal de treze quilômetros para se chegar  à canoa que ficava amarrada na outra ponta dele.

A Cabeceira da Cobra Grande como era chamada o braço de rio onde ficava a casa de Dona Chica, era tomada do início ao fim, por um aningal enorme, uma espécie de mata flutuante, ou ilha flutuante que dá muito por aquelas bandas do interiorzão do Amazonas. Mas não pense pequeno quando se trata de imaginar o tamanho do aningal que havia na frente da casa da falecida Bita. Esta sim, era uma cobra de verdade. Mas também era capaz de animar sozinha uma festa. Oh, cuiantãe feliz que era aquela! Não tinha dia ruim pra ela. Tudo era festa e gritaria. Quando estava pulando n'água, então! Aí, é que a cuiantãe vazia barulho de verdade! E aquilo gritava, e andava gritando, quando a canoa da vó dela passava batendo remo -e isso era uma sinfonia naquele mundaréu de mata, onde só se ouve sapo cantado ou sapo gritando quando está sendo engolido por cobra - só dava pra ouvir a Bita falando.

Há duas semanas atrás, Dona Chica havia sentido cheiro de pitiú de cobra quando atravessava por volta de umas cinco horas da tarde o aningal para chegar à sua casa. Ela estava vindo de uma visita que havia ido fazer à família de Seu Manuel, um benzedor que morava no boca do rio, uma viagem longa e cansativa, principalmente para uma velha de mais oitenta anos nas costas. Mas, visitar Seu Manoel para Dona Chica, era como ir à igreja no domingo de manhã, era sagrado. Seu Manuel era um benzedor, que abaixo de Deus, não havia ninguém melhor por aquelas bandas. Era o único que curava quebranto da curuminzada. E Dona Chica era uma velha antiga, sabia das coisas ocultas da mata. Não andava sem a proteção de seus encantamentos, que segundo os mais antigos, eram infalíveis quando lançados. Já havia livrado vários homens das mãos de botas que  haviam roubado suas sombras. Homens que enlouqueciam por uma linda morena que subia o caminho porto para se deitar com seus amantes caboclos, geralmente, jovens na flor da idade.

Seu Manuel estava incomodado desde que acordou. O café estava amargo em sua boca, até xingou sua mulher por causa disso. -Que isso, velha? Tu tá com pena de usar açúcar? Ou será que já acabou aquele saco de cinquenta quilos que nós compramos no início do mês? Eu, hein! Café mais amargo que fel! -Esbravejou o velho Manuel sentado em sua cadeira de cipó titica, feita por ele mesmo.

-Tá doido, velho? Tá todo mundo reclamando que o café tá parecendo um mel, e tu inda tá pedindo mais açúcar? Acordou de rabo virado hoje, foi? -Dona Naná, também era uma velha braba demais. Até mesmo seu Manuel tinha medo dela. Era uma velha de poucas palavras, mas muito sábia na feitiçaria, e sabia o que estava acontecendo com seu velho. Toda vez que o sono dele era perturbado, podia se saber, que algo muito grave estava para acontecer.

-CAPELA! OH, SEU CORNO! TU NÃO VAI RESPONDER NÃO? PERALÁ! QUE VOU JÁ ABRIR ESSE TEU OUVIDO TAPADO É NO TAPA MESMO! QUER VER?

-Senhora, mamãe! Estou aqui. -Respondeu rapidamente o curumim de treze anos de idade. O Mais novo filho de Seu Manuel e Dona Naná. Filho da velhice, ou como muitos dizem, a rapa do tacho. Muita gente na época que Dona Naná ficou gravida, começou a falar mal por causa de sua avançada idade, sessenta e cinco anos de idade. Já Seu Manuel estava beirando os noventa anos de idade, quando soube que seria pai novamente, através de sonho que teve enquanto estava tirando um cochilo no meio da mata, caçando anta, em cima do moital, um tipo de estrado improvisado nos galhos das árvores pelos caboclos quando estão caçando durante a noite na mata, e foi num desses que Seu Manuel teve o anúncio da chegada de seu caçula. Capela. Menino terrível! Danado demais o curumim! Oh, curumim encapetado que era aquele!

-Vai lá no fundo quintal, lá onde fica minhas ervas de chá, e pega um galinho de cada uma daquelas plantinhas que estão nos vasos de barro. Rápido! -Lá se foi o curumim, Capela, correndo buscar o que sua mãe havia lhe pedido.

Capela era assim, rápido pra fazer as coisas. Aquilo corria mais que um raio! Uma vez ele correu quinze quilômetros por dentro da mata pra chamar uns homens pra ajudar buscar seu pai que havia sido picado por uma surucucu de fogo, em menos de uma hora. Ninguém acredita quando a gente conta, mas o pessoal que tava lá viu quando ele chegou no meio do roçado do Seu João, com quase um palmo de língua pra fora, e quase desmaiando de tanto cansaço, falando que seu pai havia sido picado por uma cobra, como isso não é brincadeira na mata, uns oito homens voltaram acompanhando o curumim pelo meio da mata, e todos estavam certos de que o curumim erraria o caminho até onde estava seu pai, mas quando deram por conta, já estavam diante de Seu Manuel, que como todo caboclo sábio, já havia sugado com a boca, parte do veneno da cobra, que estava decapitada aos seus pés, e com o coração arrancado.

-Daqui mamãe! -Disse o curumim de cabelos loiros e crespos, com pele rosada e sardenta, muitos colegas seus de escola, o chamavam de ferrugem.

-Me dá aqui isso, que eu vou fazer um chá pro seu pai. -Disse Dona Naná pegando as ervas e colocando em sua chaleira de chá em seu fogão de barro que Seu Manuel havia feito e que nunca ficava sem fogo, não importava a hora do dia ou da noite, seu ele estava sempre aceso. Ela dominava o manuseio das ervas medicinais que aprendera com sua avó, Dona Dinalva. Outra velha feiticeira da qual todos contavam histórias magníficas, e que também era perita no manuseio das ervas da mata.

Dona Naná sabia que seu velho precisava se acalmar para poder relembrar o sonho que tanto havia lhe perturbado durante a noite. Seu Manuel não tinha dormido um segundo sequer durante a noite passada. Tinha rolado e resmungado quase durante todo o tempo em que ficou deitado tentando dormir. E ela, melhor do que ninguém, conhecia Seu Manuel, homem com o qual estava casada a muitas décadas, e sabia que ele havia tido alguma revelação durante a noite, e estava perturbado por não conseguir lembrar com o que havia sonhado. Então, era a hora da velha feiticeira das ervas começar a mostrar um pouco para aquele homem turrento com o qual havia fugido de casa para poder viver seu amor avassalador, o quanto uma feiticeira pode ser poderosa quando utiliza seu conhecimento da natureza -e vale dizer, que feitiçaria não se aprende, se nasce, pois é um dom.

Assim que o chá estava pronto, Dona Naná foi levar para seu Manuel,  que estava concertando sua malhadeira que o boto havia rasgado inteirinha durante a noite e comido todos os peixes do almoço e da janta, debaixo de um pé de caju que ficava na frente da casa, foi quando ouviu vozes de alguém subindo o caminho do porto. Quando chegou perto de seu esposo e deu-lhe o chá que lhe traria suas lembranças do sonho, ela avistou uma velha de saia preta e blusa branca, saindo de sua canoa e subindo o caminho do porto.

-EI SEU MANUEL, POSSO SUBIR? -Gritou aquela velha de andar cambaleante e com os cabelos todos brancos.

-Ôh, Dona Chica! Pode se achegar! -Respondeu Seu Manuel devolvendo o chá que Dona Naná havia feito.

-Pega, velha! Leva isso daqui. Chegou visita, tu não tá vendo? -Esbravejou o velho ranzinzo.

-Bom...tu é que sabe, velho! Mas eu se fosse tu, tomaria! -Alertou Dona Naná, jogando o chá fora.

Dona Naná voltou para sua cozinha com o seu coração apertado. Não era atoa que seu esposo havia sido perturbado a noite inteira por algum sonho maldito, e logo no mesmo dia, Dona Chica ter ido visitá-los. Mas agora também não adiantaria nada ele tomar de seu chá milagroso, o momento oportuno já havia passado. Recolheu-se em seu quarto, onde ficava um foto velha de sua falecida avó, em cima de uma cômoda antiga, que seu esposo também havia feito pois era excelente carpinteiro, do lado de vários santinhos que constituíam seu altar sagrado, e rezou algumas Ave Maria e uns três Pai Nosso, pedindo para que Deus permitisse a intercessão de seus santos e sua avó, em pró de seu esposo, e agora também de Dona Chica...




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