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YAMÊ ARAM

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

MATANDO JACARÉ-TINGA


Tem horas que nem eu mesma acredito em tudo que vivi no interior do Amazonas. Algumas lembranças são tão assustadoras, que chego a ter ânsia de vômito só de lembrar. Uma delas em especial, aconteceu num dia de manhã bem cedinho.

Eram seis horas da manhã. Todo mundo já estava acordado do lado de fora da casa. O aroma do café que minha mãe preparava na cozinha, invadiu meu quarto colocando-me de pé imediatamente. Saí para fora. Meu avô logo já falou: -Vai lavar essa venta, curumim! Toma café, que o Renóca vai contigo vê a malhadeira. Não demora muito que o sol logo, logo vai esquentar e, pode estragar os peixes que caíram no início da noite na rede. -Uma dor de barriga já me pôs pra correr até a "privada"- é assim que caboclo chama o banheiro por lá- que ficava quase um quilômetro de distância de casa, debaixo de umas castanheiras do Pará, das quais eu morria de medo pois achava que qualquer dia iria cair um ouriço atravessando aquelas folhas de brasilit que a cobriam, e rachar a cabeça dela -eu- ao meio.

Nunca tinha visto uma malhadeira sequer na minha vida. Não fazia a menor ideia  de como se fazia isso. Meu avô, era assim: Queria que eu fizesse as coisas certinhas, mas nunca me ensinava; E ai de mim se fizesse errado, o couro comia nas costas da gente! Com o Renóca eu não podia contar, nós éramos inimigos. Então, o que me restava, era esperar a dor de barriga passar e, ir ver a tal malhadeira.

Pegamos um casquinho, uma espécie de canoa cabocla, que tinha lá em casa e, fomos remando rumo ao lugar misterioso que meu avô havia ficado meia hora tentando me explicar, onde ele havia colocado a malhadeira. Por fim, eu fingi que tinha entendido tudo o que ele estava tentando dizer e, junto com o Renóca fomos rumo à uma cabeceira que ficava há uns cinco quilômetros do porto de casa, quase na boca da estrada que ligava o Paraná do Moura à Comunidade de Terra Preta, um distrito do município de Barreirinha.

Quando finalmente conseguimos avistar as duas varas, nas quais estava amarrada a malhadeira, já estranhamos a situação, elas estavam viradas e, apenas uma pontinha de nada é que estava pra fora d'água. O Renóca logo exclamou: -Nem pense que eu vou te ajudar ver essa malhadeira! Quando as varas ficam assim desse jeito, quase tudo pro fundo d'água, é porque tem alguma coisa muito grande engatada. -Pronto, eu já estava tremendo igual um vara verde na correnteza, completamente morta de medo! Sabe-se lá o quê poderia estar engatado na malhadeira! Poderia ser: Uma sucuriju enorme; Um puraqué gigante, que poderia matá-la com apenas um choque de uns quatro mil volts; Um boto-vermelho, com azar pois com sorte seria um tucuxi; Uma arraia de meia tonelada, com um ferrão de uns cinco metros; Uma ariranha, mas até que esta seria fácil de matar; Um jacaré-diriri, isso contando com a benção divina, mas isso por lá é quase uma lenda. Agora, meu medo maior era que fosse um jacaré-açu! Aí meu filho, chapéu!

Tentei comprar o Renóca com tudo que eu sabia que ele poderia querer de mim. Mas nada parecia ser melhor do que ele me vê olhando malhadeira. Dava até pra ver um sorrisinho sarcástico no canto de sua boca.

Nos aproximamos da vara que ficava mais longe da beirada do rio. Havia somente uns quinze centímetros pra fora d'água de sua ponta. A malhadeira devia ter uns quarenta metros de comprimento. Minha desconfiança era muito grande pois as duas varas foram quase que arrancadas com a força que o bicho fez, não sei nem porque não as arrancou! Peguei a ponta da vara, segurei-a com cuidado, olhei pro Renóca com aquele olhar de "E agora, o que é que eu faço?", ele só respondeu o óbvio. -Puxa a vara pra ver se a malhadeira está engatada!

-E se ela tiver engatada?

-Aí, tu vai ter mergulhar pra desengatar!

-Mas nem a pau que eu mergulho nessa água pra desengatar malhadeira! Prefiro levar uma surra daquelas de ficar mole no chão mas não entro nessa água. Sabe-se lá o quê que não tá enrolado nessa droga de malhadeira! -Segurei a ponta da vara com as duas mãos, e puxei com toda força! Nada, a vara nem sequer mexeu. Respirei fundo. Apoiei os pés no fundo do casco, e puxei novamente com mais força. Um estralo dentro d'água nos indicou que as malhas da malhadeira estavam arrebentando.

-Olha mano, assim tu vai rasgar a malhadeira todinha. E o papai vai ficar uma fera contigo, isso se ele não te arrebentar na porrada! Acho melhor tu mergulhar mesmo, se tu continuar puxando, a rasgo na malhadeira pode ser enorme, e tu sabe como é que o papai vai fazer contigo quando a gente chegar lá em casa,  e ele vê o estrago que foi feito na malhadeira que é novinha! Não tem uma semana que ele terminou de tecer essa malhadeira, ele ainda nem tingiu ela direito com a node da casca da azeitoneira. -O Renóca já estava com mais medo da reação do nosso avô, do que com a possibilidade de ser um bicho enorme que estivesse enrolado na malhadeira.

-Eu tô pouco me lixando pro que o vovô vai achar ou deixar de achar! Eu é que não vou mergulhar nessa água negra que nem piche, e ainda por cima, no meio desse monte de capim peremembeca. E se for uma sucuriju enorme que está engatada aí na malhadeira? -Eu só tinha duas opções: Mergulhar uns quatro metros pro fundo do rio para desengatar a malhadeira sem danificá-la, mas correr o risco de ser engolida por algum bicho enorme; Ou puxá-la com toda força, rasgando-a sem dó, e levar uma surra daquelas de arrancar sangue do couro da gente, além de ter que concertar a malhadeira sem saber.

Segurei firmemente a ponta da vara novamente. Respirei fundo. Concentrei toda minha força e, puxei a vara onde estava amarrada a malhadeira com tudo! O estrondo das malhas da malhadeira arrebentando fez com que o Renóca até pedisse perdão a Deus. -Puta que pariu, mano! Tu rasgou toda a malhadeira do papai!

-Mas pelo menos a malhadeira soltou sem precisar que eu mergulhasse para desengatá-la lá no fundo do rio! Quanto aos rasgos, eu vou pedir pro BemBem me ensinar a consertar.

-Mas tu sabe que o papai vai ficar uma fera, não sabe? Ai, meu Deus! Tomara que ele também não me bata quando tu tiver apanhando! -O Renóca era assim, medroso! Ele só bancava de corajoso perto do vovô, longe era mais frouxo que eu. Mas o meu avô tinha essa mania, quando um de nós apanhava, era melhor o outro ficar longe pra não apanhar também. Algumas vezes não tinha jeito, apanhava todo mundo, até os pequenos.

Toda feliz porque a malhadeira havia soltado de onde estava engatada no fundo rio, enfiei a vara com bastante força para fincá-la mais firme na lama grudenta que há no fundo de qualquer rio de água preta, e comecei a puxar a malhadeira pra cima d'água. Conforme puxava-a, percebi que estava muito pesada.

-Renóca! Tem alguma coisa muito pesada subindo junto com a malhadeira, mano! E agora, o que eu faço?

-Deve ser um tronco! Seu medroso. Pára de agir assim igual mariquinha, tu sabe que o papai detesta gente medrosa.

-Mais é que tá muito pesada. Ai meu Deus! Tem alguma coisa grande, comprida e branca subindo! Tá enrolada no meio da malhadeira. Ai, minha Nossa Senhora! Valei-me! Tomara que não seja um bicho! Acho que é um surubim gigante.

-Será, mano, que é um peixe grande? -O Renoca ficou todo animado com o fato de poder ser um peixe grande que caiu na malhadeira e, levantou-se da popa do casco e caminhou até a proa, onde eu puxava a malhadeira de pé, com um pé apoiado no pico do casco e outro no banco da frente. Quando ele chegou perto de mim, e viu o tamanho do peixe que tinha caído na rede, assustou-se.

-Nossa, mano! É muito grosso pra ser um surubim. Pelo tamanho que vi, parece ser um pirarucu grandão! -E já foi voltando pra popa do casco para guiá-lo, enquanto eu torcia para que ele estivesse certo sobre o que estava engatado naquela malhadeira dos diabos.

Assim que o peixão chegou bem perto da superfície da água, o Renóca já gritou: -É JACARÉ TINGA, MANO! -Pra quê que ele foi gritar! O bichão só deu aquela rebanada com o rabo, que foi eu e malhadeira, com vara e tudo profundo d'água. Naquilo meu querido, quando olhei pra cima, só vi uma enorme moita de capim peremembéca sumindo sobre minha cabeça, e eu já estava no fundo do rio. O pior foi quando eu olhei pro lado! Um jacaré-tinga de uns quatro metros de comprimento e, uns quase dois de largura, pois o jacaré-tinga é curto e grosso, estava preso pelo pescoço, a malhadeira tinha se enrolado em volta da sua cabeça, mas sua boca e seu corpo, e principalmente seu rabo, estavam livre.

Eu dei um grito tão grande, quer dizer, fiz aquele barulho que sai um monte de bolhas de dentro de sua boca debaixo d'água. Em outras palavras, soltei todo o ar que estava dentro do meu pulmão quando fui puxada pro fundo do rio. Meu corpo rapidamente já sentiu o efeito da falta de ar. O jacarezão mexeu de novo! A vara da malhadeira bateu no meio das minhas costas, a dor fez eu soltar o restinho de ar que ainda tinha nos pulmões. Não pensei duas vezes, mergulhei por baixo da moita de peremembéca de uns quarenta metros de comprimento. Eu sempre fui uma excelente nadadora, mas mergulhar era minha maior capacidade, era até meio assustador para as pessoas, eu conseguia ficar mais de sete minutos mergulhando, mas com o ar necessário e, naquele momento, eu não tinha nada de ar, e ainda havia um jacaré enorme, maior que o casquinho que a gente estava, se debatendo atrás de mim.

Minha vista começou a ficar turva, não estava conseguindo ver mais nada na minha frente, simplesmente sentia com meus braços e mãos, à cada braçada que dava, os talos de peremembeca engatarem-se pelo meu corpo, e cada vez mais talos se enrolavam em mim. Isso ao mesmo tempo que indicava que a beirada do rio estava vez mais perto, também indicava que eu teria que fazer mais força nadando, para me mover no meio dos talos e raízes de peremembeca que estavam ficando cada vez mais fechados, devido estarem tocando os fundo do rio por causa da beirada. Quanto mais na beirada do rio está a moita de capim, mais grossos são os capins, e pesam muito mais, pra você nadar entre eles. Mas uma coisa eu tinha aprendido com o BemBem, "sabe curumim! Se tu um dia tiver que nadar entre os capins que flutuam sobre a água, nunca nade de frente, os talos dele vão engatar nos teus braços. Aí, o quê que tu faz nessa hora? Nada de lado, assim os talos dos capins não vão engatar tanto no teu corpo." -Era o que eu estava fazendo, nadando de lado entre os talos do capim peremembeca.

Finalmente cheguei na beirada do rio, percebi que tinha chegado devido os meus pés e mãos tocarem a terra no fundo do rio. Levantei o meu corpo com toda força pra fora d'água, e já sai correndo rumo à terra firma que estava bem à minha frente. Nem lembrei que o Renoca ainda estava no casquinho no meio do rio. Quando cheguei o mais longe da beirada do rio, olhei para trás, e vi o Renoca chorando. -Tu vai me deixar sozinho aqui? Volta! O quê que eu faço agora. Eu não vou ver a malhadeira no seu lugar. Volta, mano! -Tinha horas que eu era muito besta mesmo. Ficava com pena à toa dos outros. Me deu dó do Renoca chorando no meio do rio. Afinal de contas, ele deveria ter somente uns seis anos. Eu já deveria ter uns nove anos. Acabei voltando pra beirada do rio, e o chamei:

-Então vem me pegar aqui na beirada, que eu vou aí ver o que faremos pra matar esse jacaré-tinga. -Ele mais que de pressa remou rápido e logo já estávamos de volta à malhadeira presa  no pescoço daquele enorme jacaré-tinga. O bicho era grande. Nossa Senhora! Cruz Credo do tamanho daquele bicho! Mas naquele momento eu já sabia quem teria que matar aquele monstro. Se eu saísse correndo no rumo de casa, meu avô, bonzinho do jeito que era comigo, faria eu matar o jacaré no dente e com couro no lombo -que é como a gente diz quando toma uma surra de cipó de cueira assado, mas o cipó do galho de goiabeira assado é pior que terçado, corta toda a pele da gente!- Então, eu teria que achar um jeito de matar aquele jacaré-tinga de qualquer forma. Eu nunca tinha enfrentado nada parecido com aquilo. O máximo que eu já tinha matado era passarinho, que eu e os curumins cozinhava na latinha de conserva ou de sardinha, e depois a gente comia tudo. Mas não era por fome. Era porque a gente tinha um campo enorme para andarmos o dia inteirinho. Tinha dias que o pessoal tinha que ir chamar a gente no grito pra poder a gente voltar pra casa. Naquela hora, eu descobri que teria que ser muito inteligente pra sobreviver àquele lugar onde estava morando agora. Não tinha como sair daquela situação de perigo e medo. Sempre fui muito rápida pra raciocinar em situações que exigiam um atitude certeira na hora. Peguei novamente na vara da malhadeira. O bicho já deu uma rebanada novamente que até os pássaros que estavam por perto voaram!

-Segura a vara, mano! Segura essa porra pra esse bicho não levar a malhadeira com vara e tudo pro fundo! -O Renoca tinha razão. Aquele jacaré-tinga enorme de largo, podia muito bem arrancar tudo com uma rebanada que desse.

-Eu vou ter que matar ele na cacetada! O problema, é o que o cacete que tá aqui no casco é muito pequeno. Pra eu acertar a cabeça dele com esse cacete desse tamanho, a gente vai ter que chegar muito perto de dele, e pelo tamanho que o bicho parece ter, ele vira esse casquinho com a gente e tudo com uma rabada só que ele der!

-E como tu pretende matar esse jacaré-tinga desse tamanho na cacetada sem chegar perto? Realmente genial seu pesamento!

-Ah, então vem tu mesmo matar ele, já que tu é tão valentão e sabichão! Vem!

-O papai mandou tu ver a malhadeira. Não eu. -Eu estava ferrada. Olhei novamente pro jacaré-tinga engasgado naquela praga de malhadeira. "Ôh, coisa que rasga à toa é a tal da malhadeira de nylon! A praga a gente não pode dar uma puxadinha que ela já sai rasgando toda." Olhei pro casco, e felizmente vi meu remo. Sim, todo mundo tem seu remo no interior do Amazonas. Isso é costume de caboclo, ter um remo só seu. Se perdê-lo, meu filho, chapéu! O caboclo tem que remar com a cuia de tirar água da canoa. E ninguém empresta seu remo. Ele é feito na medida certa pro seu tamanho. Meu avô tinha feito o meu remo no segundo dia que tínhamos mudado pro Paraná do Moura. Ele não era muito grande. Mas como era feito de âmago de árvore, pesava um pouquinho.

-Renoca segura firme ai o casco que vou cacetar esse jacaré-tinga com meu remo!

-O quê? Tu vai é ficar sem remo? Tu vai bandar seu remo, seu besta!

-Tô nem aí! É a única coisa que pode machucar a cabeça dele que tem neste casco. Quero nem saber! Vou matar essa merda de jacaré-tinga logo de uma vez! -Comecei a puxar o casco levantando a malhadeira devagar pra não assustar o bicho. O Renoca segurava firma o cabo do seu remo dando-me segurança pra ir aproximando o casco do jacaré. Peguei meu remo com a mão direita e o levantei acima de minha cabeça. Quando a cabeça do jacaré-tinga apareceu pra fora d'água, eu dei a primeira cacetada com toda força que eu pude pôr naquele remo. O jacaré-tinga deu um estouro  n'água, que nosso casquinho quase meiou de água. O Renoca correu e já começou jogar a água pra fora do casco. O jacarezão continuava se debatendo muito! Eu segurava a malhadeira tentando não deixar que ele arrancasse as varas.

-Olhainda, mano! Tu já rachou a cabeça dele com teu remo. Olha a quantidade de sangue n'água. -Realmente aquela água preta estava vermelha de sangue do jacaré por causa do peso da cacetada que dei nele com o remo de âmago. Pelo menos a malvadeza do meu avô tinha servido pra alguma coisa. O meu remo era tão pesado por ser de âmago que abriu uma brecha na cabeça do jacaré-tinga só com uma cacetada. O Seu Raimundo, esposo de Dona Ana Caiá, quando pegou o meu remo, já logo xingou meu avô: -Que isso, seu moço? O senhor fez esse remo pro senhor?  Porque esse remo pesado desse jeito é só pra homem velho como nós. Não é remo pra um curumim remar! Remo pra curumim não pode ser de âmago, tem que ser de madeira leve, se não os cornos não dão conta de remar.

-É bom que pelo menos o braço dele fica forte! Dá pra roçar bastante campo. Esse curumim tem que aprender que aqui o que vale é a força. Caboclo ganha dinheiro e seu sustento fazendo força. É roçando campo! É plantando mandioca. Caçando. Pescando. Remando. Ele vai precisar de força pra fazer tudo isso.

-Entendo o que o senhor diz. Mas por isso mesmo que o remo dele tem que ser mais leve, a vida já é pesada e dura demais com a gente, seu Bené!

-O senhor tem razão, Seu Raimundo! Vou afinar um pouco mais na grossura do remo que ele fica mais leve depois quando ficar pronto. -Mas meu avô não afinou foi nada. O meu remo pesava muito. Mas realmente deixou meus braços mais fortes depois. Segurei firme a malhadeira com meu braço esquerdo, e com o direito dei outra cacetada com mais força bem em cima da brecha que a primeira tinha aberto na cabeça daquele bicho enorme. A segunda foi certeira. O bichão se debateu todo. Mas eu já estava certa que meu remo o havia acertado em cheio por duas vezes. O Renoca também segurou magnificamente bem o casco, controlando com seu remo lá da popa do casquinho que tinha horas que parecia que o bicho iria afundar quando o jacaré-tinga puxava a malhadeira pro fundo do rio! As veias do pescoço dele tinha horas que parecia que iam estourar de tanta força que ele estava fazendo para segurar o casco com o remo e puxá-lo para longe do jacaré-tinga e não deixar que o bicho puxasse a malhadeira pro fundo.

Sem medo algum, dei a terceira cacetada com meu remo de âmago novamente em cima da brecha aberta na cabeça do jacaré-tinga. Mas eu pus tanta força, que sem mentira nenhuma, eu até peidei na hora! O bicho tremeu só três vezes. Nem teve forças mais pra rebanar seu rabo enorme estourando água pra todo quanto é lado. A água estava completamente vermelha de sangue. Eu? Parecia um bicho, ou, um caboclo, como eles dizem por lá! A realidade de vida daquele lugar era sanguinária. Não há perdão. Além de ter que ter força para tudo que eu fosse fazer ali, era muito mais necessário ter forças para matar. Ou você come a selva, a mata, como eles costumam dizer por lá, ou ela te come sem piedade. Mas eu senti que eu mudei por dentro quando matei aquele jacaré-tinga na cacetada. E como nós iríamos conseguir colocar o jacaré-tinga pra dentro do casquinho? O bicho mal aguentava eu e meu irmão que eramos criança, imagina se iria aguentar um bicho daquele tamanho? Mas o Renoca era genial tinha horas!

-Vamos levar ele amarrado do lado do casco, e lá em casa a gente tira a malhadeira do pescoço dele! É bom que o papai vê o tamanho dele, e quem sabe, esqueça de xingar a gente! Porque ele vai xingar! A malhadeira está destruída! Tu sabe quanto custa o carro de linha de nylon? Tu sabe?

-Dezoito reais e noventa e cinco centavos!

-O quê que tu falou aí?

-É quanto custa o carro de nylon lá na Casa União.

-Então! Vai gastar uns três carros pra consertar.

-Cinquenta e seis reais e oitenta e cinco centavos.

-EU NÃO TÔ ENTENDENDO PORRA NENHUMA DO QUÊ TU TÁ FALANDO!

-É quanto eu vou ter que tirar do meu bolso pra consertar essa merda de malhadeira filha de uma puta! E eu nem queria vir pra cá pra essa merda de interior do capeta. Ai, que ódio! -Aí, quem chorou foi eu. Mas eu chorei de raiva naquela hora. Eu estava com tanto ódio de tudo, que nem minha mãe escapou da minha ira, e das maldições que lancei naquela época de sofrimento para mim. Eu sentia tanta saudade de Parintins, que chegava a sonhar com ela toda noite. Ai, eu lembrava do meu pai biológico, e começa a amaldiçoa-la também!

-Tu não gosta daqui, né mano? Eu sei que tu não gosta. Mas como que tu vai sair daqui?

-Não sei. Mas eu vou dar um jeito. Ah, mas se vou! Não vou ficar aqui, mas nem que a vaca tussa e rache no meio, eu fico neste lugar! -O renoca realmente conseguiu amarrar o jacaré-tinga na lateral do casquinho. Ele já pegava o bicho com tanta tranquilidade, que parecia até tinha sido ele que tinha matado o monstro. Já eu que tinha assassinado aquele jacaré-tinga, não conseguia nem olhar pra ele. Havia uma mistura de pena com alívio no meu coração. O Renoca dá as primeiras remadas para virar o casquinho com a proa apontada na direção de casa. Levo meu remo à água, quando puxo, percebo que estava leve demais pra remar, achei muito estranho. Quando chegamos mais no meio do rio, o Renoca fala gritando: -Tu quebrou teu remo seu besta! O papai vai ficar puto contigo! Tu sabe, não sabe? Não quero nem ouvir o que ele vai falar pra ti!

-Não sei onde foi parar a banda do meu remo até hoje. Na hora não quis nem olhar. Eu tinha matado um enorme jacaré-tinga que podia ter afundado por nosso casquinho e comido nós dois de uma só vez. Eu tinha me tornado violento como a selva, a mata na verdade. Porque lá no interior do amazonas todo mundo fala mata. Ninguém nem sabe o selva. Mas mato eles conhecem. Devido meu remo estar bandado, eu tinha que remar duas vezes em uma  remada do remo inteiro, pra poder compensar a falta da banda do meu remo de âmago que tinha quebrado com as três cacetadas que dei no jacaré engasgado.

















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