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YAMÊ ARAM

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O SPC DAS FEITICEIRAS

Quando era pequena, estava com quatro anos de idade, me deparei com o que se tornaria meu maior pavor. Acho que desenvolvi fobia de tanto medo que tinha quando alguém falava "A fulana foi levar o nome do ciclano lá em Faro". O SPC da Região Norte do Brasil. O nome mais temido por todos  que conhecem a fama da cidade. A cidade dos feiticeiros mais poderosos e infalíveis em seus trabalhos. Era só ouvir este nome, que tinha gente que lembrava na hora de pagar suas dívidas.

O seu Antônio era um carroceiro. Um dia, devido à morte do seu cavalo, pediu emprestado Dez mil cruzeiro para a Maria, uma feiticeira conhecida de todos, e com fama de maldosa. Dizem, que ela conseguia transformar planta em animal!

A Maria, de bom coração, e sem muita conversa, logo encheu as duas mãos do seu Antônio com muitas notas de cruzeiro, que logo correu, comprou uma carroça novinha, e também um cavalo novo e forte, de boa raça, bem cuidado, perfeito para ele fazer seus carretos na Baixa de São José.

Seu Antônio prosperou, ganhou bastante dinheiro com os muitos carretos que fez pro pessoal que vinha do interior vender farinha, fruta e beijus de mandioca, banana, até mesmo caixas e caixas de peixes congelados, pescados por pescadores que eram amigos de seu Antônio.

A Baixa de São José era o porto dos pobres coitados que moram no meio do mato, às vezes até dois dias de viajem, encostarem em Parintins para venderem seus produtos no mercado que ficava na Avenida Vicente Reis, que agora se chama Avenida Lindolfo Monte Verde, não muito longe dali, mas distante o suficiente para se necessitar de uma carroça pra fazer o transporte dos produtos.

Então, seu Antônio até colocou toldo em sua carroça. Pintou-a de vermelho e branco, pois ele era torcedor do Boi Bumbá Garantido, ficou linda. A Maria, vendo que ele estava ganhando dinheiro, percebeu que já era hora de exigir seu pagamento. Afinal de contas, o trato era, "...Até as coisas melhorem  um pouquinho...Aí eu pago a senhor Dona Maria!".

Numa terça-feira pela manhã bem cedinho, antes de seu Antônio sair para trabalhar, ela bateu palma no portão dele.

-Bom dia, seu Antônio! -Cumprimentou  Maria, assim que seu Antônio abriu a tramela que fechava o portão de sua casa, que era de madeira, coberta com brasilit, e chão de barro batido.

-Bom dia, Dona Maria! Como vão as modas com a senhora? -Respondeu seu Antônio, com ausência de sorriso em seu rosto.

-Eu observa tudo, do portão da minha casa, na rua Oneldes Martins. Outros vizinhos também olhavam tudo dos seus portões. Todos já comentavam sobre a demora de seu Antônio em pagar a Maria. Já era certo que ela iria cobrá-lo a qualquer dia. Ainda mais que, ele estava passando todo dia bêbado de tanto tomar cerveja no bar da Saúde, na frente da casa dela.

-Ora, se ele tinha dinheiro para beber todas e ainda pagar para todo mundo, por que também, não pagava sua credora impiedosa? Muitos amigos de seu Antônio já haviam lhe avisado sobre sua demora em pagar Dona Maria.

O Chora Rita, um perreché que tinha lá na Baixa de São José, que vivia sentado na calçada do armazém do meu pai, vigiando todo mundo que subia e descia da beirada do Rio Amazonas, já tinha chamado a atenção do seu Antônio. -Rapaz...paga logo a Dona Maria! Depois essa velha resolve  de mandar um feitiço, ai...Ai, tu já viu como é que a coisa fica feia! Depois não reclama da sorte.

-Que isso seu moço! Deixa aquela velha esperando um pouco mais de tempo. Depois que eu comprar uma outra carroça, eu pago ela. A velha não precisa desse dinheiro agora. Ainda mais que com a morte do finado marido, aquela corna recebeu uma boa grana, não é possível que vai me cobrar esse dinheiro tão rápido assim!

Seu Antônio estava certo de que Dona Maria iria esperar pela sua boa vontade em pagá-la. Mas com esse tipo de gente não se brinca. Ainda mais uma feiticeira antiga como a Maria. Os rumores a respeito dela eram de deixar qualquer um de cabelo em pé. Todo mundo na cidade tinha medo dela. Também ela não gostava muito de conversa fiada com ninguém. Era uma senhora séria e de poucas palavras. Nunca fora de jogar conversa fora com ninguém. Era uma mulher brava e rabugenta, como muitos falavam pelas suas costas.

Mas eu nutria uma admiração profunda pela Maria, era assim que eu a chamava, isso, a pedido dela mesma. Meu avô detestava quando eu a tratava assim, então, ficamos combinadas a termos nossa própria forma de tratamento. Eu era o curumim inchirido, e ela a Maria, sem o Dona. Mas isso, tinha que ser somente entre nós.

-Seu Antônio, em vim aqui saber do meu dinheiro que emprestei pro senhor. Agora que as coisas já melhoraram pro senhor, eu gostaria de receber meu pagamento. Será que posso saber quando o senhor vai me pagar? -Seu Antônio logo fechou a cara para a Maria.

-Olha Dona Maria, e...Eu ainda não tenho seu dinheiro, mas assim que eu tiver, eu levo lá na sua casa pra senhora. Me dê mais duas semanas, pra eu juntar todo o  dinheiro, que eu levo pra senhora! Tá bom?

-Tudo bem seu Antônio, eu aguardo duas semanas. Passar bem!

-Passar bem, também, Dona Maria! -A cara da Maria quando virou de costas pro seu Antônio, não era das melhores. Meu coração chegou gelar de tanto medo que senti por ele. Seu Antônio, parecia não perceber que estava brincando com fogo. Ele estava sem noção nenhuma do perigo que estava correndo. Como se diz lá no interior do Amazonas "Cutucando onça com vara curta". Todo mundo da rua que viu a conversa entre os dois, tremeu os joelhos.

Dona Violeta, irmã da Maria, chamou o seu Antônio para conversar sobre o assunto. Ela conhecia muito bem, e melhor do que ninguém, sua irmã. Violeta sabia que não era bom brincar com sua irmã. Ela já tinha visto, e experimentava o tempo todo a capacidade da feitiçaria da Maria. Uma mulher que não gostava de visitas. Não era muito de sorrir, e muito menos de ficar indo na casa dos outros. Seu quintal era cheio de plantas que ela usava para fazer remédio. Sua mãos já haviam curado muita gente, e segundo a língua do povo, tinha matado muitos também.

A verdade, é que a Maria era uma pessoa extremamente sistemática. Tudo com ela, ou era oito ou era oitenta. Detestava mentiras. Odiava fofocas. Eu só lembro dela bebendo uma única vez, que foi quando seu marido faleceu, e segundo ela, e que também era sabido por todos que o conheciam, ele não queria choro nem lamentações em seu velório. Por isso, cumprindo o último desejo do falecido, Maria fez uma enorme festa onde tomou um porre de vinho e pinga da roça.




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