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YAMÊ ARAM

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PÉ-DE-MOLEQUE AMAZONENSE

Conheço dois tipos de pé-de-moleque, o mineiro e o amazonense. Bom...eu gostei de comer os dois. Agora, prefiro o amazonense, ele é maior e mais maçudo. Mais duro, por causa de sua massa feita de mandioca-mole. Adoro os grandes. O do amazonense é enorme. Redondo. Grosso. Casca grossa. O mineiro é pequeno. O bom, que é doce. Mas enjoa rápido. O Amazonense enche rápido. O mineiro da sede. O amazonense dá vontade de tomar com café. Mas, pra falar a verdade os dois são bons. Só quero mostrar a diferença entre os moleques, ou melhor, pés-de-moleques.

O pé-de-moleque amazonense dá bastante trabalho de fazer. É preciso buscar a mandioca muito longe. Caboclo tem mania de fazer roçado o mais longe possível de casa. São quilômetros remando. Remando mesmo. Até dá calo na mão. E quando a canoa encosta, ainda restam uns bons quilômetros pelo meio da mata até chegar no roçado, lugar onde as mandiocas são plantadas. Se o massapé for muito seco meu filho, chapéu, o caboclo vai  sofrer pra arrancar!

Nosso roçado ficava há dez quilômetros de onde nós  morávamos. Minha mãe havia oferecido para a Dona Raimunda esposa do Seu Jabuti, uma sociedade meio-a-meio de tudo que fosse feito das mandiocas arrancadas. Dona Raimunda não perdeu tempo, já pois logo as  meninas pra  fora da rede foi cedo. Saímos de casa por volta de uma quatro e meia da madrugada, e chegamos no segundo porto da casa do Seu Jabuti, por volta de uma seis e meia da manhã. As filhas da Dona Raimunda já estavam acordadas, quando viram nosso cascão chegando, já gritaram logo: -Õh mamãe, o pessoal dos Benezada já chegou! -Manda eles subirem, minha filha! Disse Dona Raimunda com sua voz aguda e estridente.

-Êh Dona Raimunda, com licença! Estamos subindo! -Disse meu avô já brigando comigo pra eu pular do casco, e amarrá-lo numa estaca que estava fincada na beirada do rio, exatamente para se amarrar o casco ou a canoa.

Quando chegamos na cozinha da Casa do Seu Jabuti, Dona Raimunda já foi logo mandando a gente sentar na mesa, e comer dos seus maravilhosos beijus de todo tipo, beiju-d'água, beiju-cica, pé-de-moleque, quebradinho de tapioca e muitos outros que já até esqueci. -Vamos sentando, Seu Bené! Fique a vontade. Sirva-se do café. Pode servir os seus curumins também.

-Õh Dona Raimunda, não precisa, querida! Já tomamos café antes de sair de casa. -Respondeu minha mãe, quer dizer, minha vó para Dona Raimunda.

-Deixa de besteira, Dona Jojó! Toma café aí, põe pros curumins também, que o roçado  ainda tá longe, e a gente só vai almoçar depois que a gente arrancar pelo menos uns trinta paneiros de mandioca -são necessários arrancar uns seis a oito pés de maniva pra encher um paneiro com mandioca, cada pé de maniva dá umas quatro a sete mandiocas grandes, pois naquela região do nosso roçado, o massapé era macio, então dava mandioca muito grande, de quase três metros de comprimento - por isso o bucho da gente tem tá bem cheio de comida. E o sol também não tá fácil pra gente ficar com o estômago vazio.

 Depois que a mandioca foi arrancada e já se encontra em casa -obvio depois de muito sofrimento, pois carregar paneiros e paneiros cheios de mandiocas grossas e grandes, ou melhor, compridas, não é mole, não! - é colocada dentro de sacos de fibra com terra e tudo, e depositada na beirada do rio dentro d'água, onde ficará por uns três dias até amolecer. Prefiro a mandioca dura. Mas, pra fazer o pé-de-moleque é preciso mandioca mole. Dessa não sou muito fã. Retira-se os sacos de mandioca mole, leva-se pro barracão de fazer farinha, uma estrutura de casa, totalmente aberta, somente coberta com palha, possui também uma raladeira onde as mandiocas duras são trituradas, uma gareira, uma espécie de casco de madeira que serve para depositar, misturar e peneirar a mandioca e um forno, que as vezes é de barro ou de ferro, suspenso por uma estrutura arredondada, também de barro, mais ou menos com um metro e meio de altura, contendo uma abertura por onde se coloca a lenha pra aquecer o forno. Após toda a mandioca mole ser descascada, amassa-se a mandioca inteira, adoro isso. Depois da mandioca ser amassada com as duas mãos, é hora de encher o tipiti, uma espécie de cobra tecida de palha, gulosa, capaz de engolir todo tipo de mandioca, mole ou dura, tanto faz, e não importa a grossura ou a quantidade de mandioca, o tipiti engole tudo. Depois que o tipiti está cheio, é a hora mais gostosa de todas, é hora de socar o tipiti. Que saudade do Amazonas que me deu agora! Você pega com a mão esquerda o rabo do tipiti, é muito excitante, e com a mão direita a cabeça do tipiti, ou a boca dele, e soca, soca, soca, até toda a mandioca entrar pro íntimo dessa sucuriju gulosa e engolidora de mandioca. Aí, como a boca do tipiti fica grande quando ele está cheio de mandioca, e numa boca grande sempre cabe mais coisas, coloca-se então, um ouriço de castanha do Pará na boca dele pra poder a mandioca não vazar! Mas, a minha parte preferida vem agora. Pega-se o tipiti entupido de mandioca e entalado com um ouriço de castanha do Pará, pendura-se sua cabeça, que possui uma espécie de argola, na ponta de um pau, quero volta pro Amazonas, pega-se o pau do tipiti, que delícia, e enfia-se o pau do tipiti, que tem mais ou menos dois metros e meio de comprimento, como eu era feliz e não sabia, numa argola que fica localizada na parte de baixo do tipiti, ou seja, no rabo dele. E ainda não chegamos ao ápice. A hora de sentar no pau do tipiti. E o pau dele é forte. Aguenta uma seis pessoas sentadas de uma só vez. Tá vendo por que prefiro o pé-de-moleque amazonense! E o pau do tipiti deve ser sentado por pelo menos umas duas horas por todos, e não pode levantar ninguém. Gente, á selva é linda! Só se levanta do pau do tipiti quando a mandioca está completamente seca. Vazia de líquido. Deus é amazonense! A foto do post é do fotografo Paulo Borges, a quem agradeço imensamente!

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