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YAMÊ ARAM

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O TUCUNARÉ-AÇU GIGANTE

           Meu irmão sempre fora melhor do que eu em tudo, ou pelo menos, quase tudo…Ele não tinha medo de nada. Roçava campo. Pescava. Prendia o gado. Andava de cavalo. Mergulhava em qualquer água, lembrava muito o nosso avô, Seu Bené, que também era assim destemido de tudo. Ele não tinha medo nem de raio cair na cabeça dele. O Renóca era assim também, parecia ter sido feito pra viver na mata. Ele era a paixão de meu avô. Os dois pareciam pai e filho. Eu no entanto, mal conseguia rezar, e morria de medo das vacas, e do meu avô, o Seu Bené, também, que  não tinha bons sentimentos para comigo.

           Mas eu tinha mais  medo das vacas. Elas tem chifres, e quando tem filhos, elas são capazes de derrubar uma árvore com a testa. Tinha uma vaca chamada Daquinha, que a bicha era brava demais quando tava de filhote novo. E a peste da vaca só paria no meio do mato, e ainda amoitava seu filhote, que ao menor sinal de qualquer coisa, já se escondia no meio daquelas moitas de Lacre -uma espécie de vegetação muito abundante em terrenos de massapé, sua seiva é muito usada pelos caboclos para cicatrizar cortes e ferimentos que estejam sangrando muito ou inflamados, é só passar uma vez, que no outro dia já tá melhor o ferimento - E com toda essa diferença entre eu e o Renóca, óbvio, que quem saía perdendo nisso tudo era eu.

            Numa bela tarde, meu irmão a mando de meu avô, foi me ensinar tarrafiar. Meu medo era termos que pegar um casquinho que mal cabia uma pessoa, que dirá duas! Ainda mais para tarrafiar, que você tem que balançar o casco na hora de chojar a tarrafa, aquele casquinho não iria aguentar, e afundaria na primaira balançada que déssemos. Pois foi nesse mesmo que meu avô mandou que fossemos tarrafiar. Ele era tão pequeno que mal podíamos nos mexer dentro dele.  Balançar a tarrafa era o mesmo que ir pro fundo. Mas, meu irmão era praticamente um caboclo. Sobrevivia a tudo. Ele jogou a tarrafa várias vezes pra eu poder ver e aprender como se jogava.

             Aquelazinha e aquelezinho, é praticamente impossível aprender. As veias do pescoço da gente pulam todas pra fora. Aquilo pesa demais! A tarrafa é uma espécie de rede de pesca, só que em forma de saia. Ela tem chumbo nas suas bordas, algo em torno de uns três a quatro quilos, que fazem com que a tarrafa afunde rápido e capture os peixes. Nossa, a bicha pesa demais. O caboclo tem que firmar os pés pra jogar a tarrafa, se não vai junto! É praticamente como se equilibrar na corda banda jogar a tarrafa de cima da proa de um casco. Quando o casco é grande, ainda vai bem, pois ele aguenta o balanço que se faz para jogar a bendita tarrafa.

             Vendo meu irmão jogar a tarrafa, parecia muito fácil e lindo. Achei que já tinha aprendido, e toda prosa, falei ao meu irmão. –Deixa eu jogar, agora já aprendi!

             –Simples assim? Olha, só perece fácil! Tu nunca jogou tarrafa, como que tu tem certeza que já sabe, se é primeira vez que tu me ver jogando tarrafa? -O Renóca adorava me tirar. Zuar de mim, era uma das diversões preferida dele. Na cidade quem o zuava era eu. Mas ali naquele lugar que nem Deus deve vê lá de cima, eu estava realmente no terreno do Renóca. Ele sabia tudo de mata, eu não sabia nem onde eu estava, que dirá como iria sobreviver naquele lugar longínquo e perigoso.

             –Tô te falando, já aprendi! -Eu não tinha muita paciência para aprender, aquilo  ia me dando uma agonia, ficar ali olhando ele se exibir pra mim, mostrando que sabia tarrafiar, só pra zuar comigo, depois ainda ia zuar quando a gente chegasse em casa, onde contava tudo nos mínimos detalhes pro meu avô, o Seu Bené.

             -Então tá, passa pra proa, e eu fico na popa. -Eu e meu irmão nos equilibramos para conseguirmos trocar de lugar naquele casco sem afundarmos, caso isso acontecesse a surra era certa. Ainda mais que a madeira da qual o casquinho era feito, afundava igual pedra, então, nem adiava querer se apoiar no casquinho caso afundássemos. Com muita dificuldade e equilíbrio conseguimos trocar de lugar.

              O Renoca amarrou a corda da tarrafa no meu braço, mas especificamente no meu punho esquerdo. Com a mão direita abri a tarrafa, com a esquerda abri a outra parte dela, e com os dentes segurei uma blanqueta de chumbo, para soltar quando a tarrafa abrisse toda no ar. Dei uma leve balançada no casquinho, balançando a tarrafa pra trás e pra frente, para ganhar impulso pra poder conseguir jogar a tarrafa o mais longe casco possível e poder abri-la mais. Pois se a saia dela não abrir direito, não pega peixe nenhum. E está é a maior dificuldade de tarrafiar, a saia da tarrafa cair toda aberta n'água.

              Na hora de jogar, é que é seu moço! Lembrei de tudo, menos de soltar a maldita blanqueta que estava presa nos meus dentes, quando a tarrafa entesou, e abriu todinha no ar, fui puxada pelo peso da tarrafa sem muita dificuldade, quase arrancou meus dentes da frente, e voei com ela até cairmos n'água. Num piscar de olhos, eu estava no fundo do rio, olhei pra um lado e pro outro, mas tudo era negro. Pés logo tocaram  o lodo que fica no fundo rio. Meu ouvido estava doendo um pouco pois eu estava a muitos metros pro fundo do rio.

              Maldita água preta! Aquilo te deixa cega lá no fundo! -Já pensei logo no pior, uma sucuriju enorme, daquelas que faz até onda quando afunda...Rapidinho já soltei a blanqueta de chumbo, e tentei voltar pra superfície, pra respirar e sair daquela negridão que é os fundo de um rio de água preta. Tomei um susto tão grande que até esqueci de ficar com medo. Mas, nunca que eu chegava na sombra do casco que parecia está bem pertinho de minha cabeça. Comecei a nadar com mais força pra tentar boiar mais rápido. Eu conseguia ver o meu irmão olhando pro fundo do rio de cima do casco. Mas eu tinha ido parar tão fundo no rio, que estava demorando demais pra eu boiar pra respirar. Aquilo eu nadava, nadava, nadava mas nada de chegar à superfície d'água. Já estava ficando sem ar, quando consegui boiar, com os olhos do tamanho de uma maçã, de arregalados de medo, meu irmão muito carinhoso, disse-me: -Me dá o cabo da tarrafa, você não soltou ela não, né? -Ele estava preocupado só com a maldita tarrafa, eu? Que me lascasse lá em baixo.

              -Obrigada pela ajuda, maninho! Nunca imaginei que essa praga de tarrafa fosse parar tão rápido no fundo do rio. Sempre achei que dava tempo dos peixes fugirem quando ela estourava sobre as águas, mas eu estava enganada, é menos que um pensamento o tempo que ela leva para afundar e capturar os peixes! -Dei o cabo da tarrafa que estava amarrado em meu braço pra ele, que imediatamente já começou a puxá-la de dentro d'água. Um puxão na tarrafa fez meu amável irmãozinho se assustar.
-O que é isso tá puxando a tarrafa pro fundo? -Exclamou o Renóca já arregalando o olho. Quando ele ficava com medo sempre ficava com o olho arregalado.

-Não sei, Renóca. Se tu que se diz pescador não sabe, que dirá eu que sou só um curumim metido da cidade! -Ele terminou de puxar a tarrafa de volta pra dentro do casco. Para nossa surpresa, estava ali um Tucunaré Açu de uns vinte quilos e quase um metro e meio de tamanho. Era muito grande o bicho!
-Olha Renóca, tem um Tucunaré Açu gigante! -Nossa, eu nem acreditava que aquilo tinha acontecido. Era pra não ter pegado peixe nenhum segundo o Renóca. Mas, toda regra tem sua exceção, e naquele momento, no qual a tarrafa não deveria pegar peixe algum, um Tucunaré-Açu, gigante, resolveu abrir aquela exceção para mim.

Quando chegamos em casa, o Renóca já gritou! -Pegamos um Tucunará-Açu gigante, pai! -Sim. Era assim que o Renóca o chamava, de pai. Eu não conseguia chamá-lo mais daquela forma. Nem meu pai biológico eu conseguia chamar de pai, direito. Essa palavra "pai" sempre foi estranha para mim. Nunca soou em meus ouvidos como uma palavra amigável, soa sempre com um sentido de inimigo, uma coisa estranha, um espinho, quiçá um algoz!

-Mentira! Quem pegou esse Tucunaré-Açu foi eu. Não fomos nós. Eu fui parar no fundo do rio pra buscar essa peste de peixe. Quase morri pra pescar essa praga. Fui parar uns doze metros pro fundo do rio. Quando o Renóca puxou a malhadeira, viu que tinha esse Tucunaré-Açu enorme.

               PARRUDÃO DE ENORME O BICHO! Acho que foi pura sorte, mas, pelo menos deu pra tirar onda com meu avô e meu carinhoso irmãozinho! Amo uma caldeirada de Tucunaré com banana grande e tomate inteiro, com o caldo engrossado com cuí de farinha d'água! Bastante cicória e coentro...

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