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YAMÊ ARAM

terça-feira, 20 de março de 2012

O LEITE DE AMAPAZEIRO

         "O LEITE DE AMAPÁ. Outro leite bom do amazonas, do qual eu já tomei demais! Inclusive, já tirei também… Leite de Amapazeiro. Este como todo pau da selva, dá leite  bom. Leite que tira até doença braba do corpo. Eu sempre gostei de tirar leite , e parece que tudo na mata dá…

          Pra tirar leite dessa árvore, diga se por sinal, muito grande e reta, a bicha some pra cima quando  se olha de baixo do toco dela, é a mesma coisa que tirar leite de seringueira. Primeiro se corta o pau fazendo uns cortes na diagonal, que se encontram formando um canal. Depois, se coloca a biqueira, que pode ser de lata ou zinco, põe-se a vasilha em baixo, e o leite começar a jorrar.

             Tudo demora na selva, pra esse leite sair, leva a noite inteira. Dá um cansaço isso, a mão fica até dolorida, mas, é uma bebida gostosa, tão bom que vale a canseira.

             A árvore em tamanho, parece uma castanheira, tronco grosso e copa grandiosa, difícil é subir nesse pau, não é fácil que nem na mangueira. E ele ainda fica escondido, confunde-se com outras madeiras.

             Mantem-se o olho bem aberto, pra não errar na biqueira, se não o leite cai na terra, e em vão se trabalhou a noite inteira.

             Com o leite de Amapá se faz mingal, gemada batida e gostosa, melhor que a do ovo de galinha, sem gordura e não é venenosa. Pra fazer a gemada se bate o leite na cuia até espumar , adiciona-se o açúcar, e a farinha pra poder engrossar.

             Caboclo da mata é danado, sabe todo leite que pode tomar, tem uns que matam o coitado, são fortes e difícil de tirar.

             O leite de Amapá é fortificado, quem tem doença não pode provar, convulsão terá o danado, que cai no chão tremendo a chorar. Essa seiva põe tudo pra fora, cuidado é melhor tomar, pois, esse leite da selva, com o corpo pode acabar.

             Mas, sempre fui muito saudável, comi de tudo, e todos os leites dos paus da mata pude tomar. Nunca passei mal com nada, mais forte me fizeram ficar, mamei até sete anos, treinada estou pra tirar, o leite de toda madeira, que só me aumenta o paladar. Que dirá leite de Amapá!"

            Descrevendo assim desse jeito todo poético,  até parece que é fácil tirar leite de amapá. Mas não é não! Principalmente, porque o amapazeiro só dá no meio da mata, a gente tem que andar muito pra encontrar essa árvore leiteira. Mas em tempos de fome, como é a época da cheia, quando os rios estão tão cheios, que qualquer cabeceira fica inundada, os peixes aproveitam para entrarem os mais profundo possível nas cabeceiras, que são sempre protegidas por enormes moitas de capim-tiririca, que é tão afiado, que corta até o espírito da gente, e fica muito difícil pegar um peixinho que seja.

            As vezes tem tanto capim-tiririca, que nem cortando com terçado, usando camisa manga-comprida e calça jeans, a gente consegue entrar no fundo de uma cabeceira. Era exatamente essa época de cheia e fome que vivíamos no Paraná do Igarapé Açu, um afluente do grande rio Uaicurapá, outro dos afluentes do grandioso rio Amazonas. Não tínhamos pego nada de peixe nas doze malhadeiras que colocamos em vários lugares bem distantes de casa. Todo dia a gente  mudava de local cada uma delas, mesmo assim, por semanas não tínhamos pegado nada, nenhum peixe. Costumávamos dizer que só tinha pego limo.

             Meu avô estava roçando mata, cortando as árvores pequenas, pra depois derrubar no machado as grandes, esperar umas duas semanas de sol quente, coisa que não é muito difícil no Amazonas, e tacar fogo em tudo, pra em seguida, quando o fogo acabar, plantar capim pro rebanho de gado. Por volta de umas cinco horas da tarde, meu avô e os homens que o ajudavam roçar mato, saíram de dentro da mata, e atravessaram o campo ruma à nossa casa. Eu, Renocá e o Cayo, um primo nosso, corremos ao encontro deles, chegando perto do nosso avô, ele logo disse: -Curumins, você não querem ir lá na mata antes de escurecer muito, e tirar um leite de amapá pra gente tomar no café amanhã de manhã? Quem sabe a mãe de vocês anima, e faz um mingau de farinha com leite de amapá, Não é não, seu Izaías?

              -Nossa curumins, é mesmo! Mingal de farinha com leite de mapá é bom demais, seu moço! A velha faz lá em casa pra gente, mas por lá pelas bandas de casa não tem muito amapazeiro grande, aí a gente não pode ficar cortando muito as bichas, tem que esperar os cortes cicatrizarem primeiro, pra depois tirar leite de novo. Mas esse amapazeiro que o avô de vocês entrou é uma baita árvore, deve tá lotado de leite. Se eu fosse vocês já corria em casa, pegava um terçado, uma leiteira, um pedaço de lata de óleo de cozinha, chamava o cachorros, e chispava pro mato pra colocar a biqueira, se vocês deixarem a leiteira lá a noite toda, amanhã cedo quando vocês foram buscar, vai tá cheio de leite.

               -Nós nem pensamos duas vezes, corremos pra casa, pegamos tudo que seu Izaías havia dito que precisaríamos, e voamos pro meio da mata. Meu avô tinha nos dito que para encontrarmos o Amapazeiro, era só a gente seguir pelo caminho mais limpo e pisado de todos. Pelas palavras do meu avô, não muito difícil encontrarmos a árvore.

                Caminhamos por quase uma hora em meia adentrando a mata. Já não dava mais para vermos a luz do campo. A mata já estava ficando escura. O Renóca já começou a reclamar da escuridão que invade a mata depois que o sol se põe: -Vamos voltar! Tá ficando muito escuro, a gente volta amanhã de manhãzinha, e coloca a leiteira. Essa mata é cheia de surucucu, jararaca, cascavel, e sabe-se lá mais o que tem de bicho perigoso por aí. Vocês não querem voltar, não?

                 -Realmente ele estava com razão, aquela mata era muito perigosa. As jararacas de lá, costumam vir pra cima do caboclo, quando a bicha bate o chocalho, é melhor procurar um lugar pra subir, e ficar de olhos bem abertos pois ela vem mesmo. Por lá por aquelas bandas, tem muito bando de queixada, o javali do Amazonas, o bicho é perigoso demais. Queixada não tem medo de nada, ele parte pra cima da gente na hora. Mas eu e o Cayo estávamos dispostos a encontrar a árvore de amapazeiro, e não voltaríamos pra trás sem achá-la. Então o Cayo disse: -Que isso Renóca, você tá com medo? Eu trouxe lanterna comigo, se precisar, ou ficar muito escuro, eu ascendo ela. Mas não fica com medo que é pior ainda. Até porque, precisamos ter o que comer amanhã no café da manhã!

-O Cayo estava certíssimo, não teríamos outra coisa para tomarmos café, tínhamos que encontrar o Amapazeiro de qualquer jeito. Estávamos empolgados com a possibilidade de ter algo para comer noutro dia que não fosse pirão de farinha temperado, já estávamos enjoados de tanto pirão de farinha. Nosso arroz tinha acabado, o feijão também, então, estava na hora de começar a comer tudo que a farta natureza de lá nos oferecia.

-Ali, achei o amapazeiro! Graças a Deus!
-Onde mano? Cadê ela?
-Ali à sua direita, olha! Aquela com manchas brancas, igualzinho vovô nos disse "é a única árvore toda pintada de branco que tem naquele pedaço do mato roçado, é quase chegando no final de onde nós paramos de roçar.", realmente era quase no final do roçado, e já estava noite dentro da mata.

            

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